Não se assuste
Branca-nega minha,
A chama que minha língua toma conta
Em fogo baixo ela fala.
E o falo em riste desponta
Na conta do que faz falta
A distância que te faz ausente
Ajuda a inspiração
Nada, nada atrapalha
Pira em meu corpo
O seu verso ardente
A pulsar na mente
Linda mortalha
Esquece o que nos separa.
Nada disso soma. É coisa a toa.
Somos versos, somos tudo:
Vinicius, Quintana, Hilst e Pessoa.
Vai, abre a porta e aponta
O dedo na minha boca
Que mordo e assopro até deixar-te tonta.
Decifra-me e devora-me
Maldita Nega-branca minha...
Pois na mente, no verso,
É que faço das suas
Letras minhas.
ALEXANDRE BEANES - 9:00 AM
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Domingo, Março 18
CARTA DE DESEJO PARA DESTINATÁRIO DISTANTE
Não olha
Como quem não quer
Receber cartas de amor.
Sei que a mão
Que a escreve
Seria de melhor valia
A passear pelo teu colo
E posicionar o teu seio
Para o pseudo-alimento.
Recolhe cada frase
Num canto do pensamento
Guiando-a ao lamber de línguas
Que tinha obsessão de mim,
E era tão bom...
Não sei se por exibição
Ou covardia
(No bom sentido),
Mas muito bom.
Confirme o verso
Que te bolina o sexo
E a força a pensar em mim.
Mande mais lembranças
Por linhas tortas
Que me cambaleiam a perna...
Que torna a curva, reta.
Ereta sensação de desejo.
De beijo.
Mande logo pelo correio
Esse rumo-remetente
Para tornar o dia mais curto,
Impertinente
Que te molha a coxa e o lábio
Que te rouba o frio
E a ausência da lua...
Amor...
Pelo amor do Santo Homem...
Remeta uma enxurrada de vontade
Na tinta da caneta
Que escreve a carta.
Remeta teu cheiro
E teu gosto,
Povoa cada letra,
Cada palavra, cada frase
Com a imagem do seu gozo.
Vem...Adivinha.
Alivia em cada gesto,
Desenha no fim um coração.
Deixa que vou povoar
O caminho em minha mente.
Não há maior desejo que o de ti.
Não há maior vontade,
Nem na exaustão.
ALEXANDRE BEANES - 1:13 PM
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Segunda-feira, Março 5
Agora que encontro a porta aberta
Dos olhos, do corpo, da alma,
Revejo que a mira estava certa
Sem pressa, com calma,
Porém torto, doido, ante a entrega.
Me fez menino abusado
Voyer de tudo que mira em ti.
Pór isso, ao decote levado,
Arrasta meus olhos (castanhos armados),
Afaga o desejo (de ser enlevado),
Arranca o azul (juízo tomado)
Da doce saliva que te quer em mim.
Paro, para ter a certeza,
De que trazes um sim vestido de não.
Encaro calado a nua natureza
A minha preta, ali, deitada no chão:
'És banquete de cama, fogão e mesa'
Mil talheres, mil joguetes de entregue paixão.
No mar que mergulho minha língua
Encontro suas pernas em pleno frisson
Tomamos-nos, como poetas ante a rima,
Ao som dos gemidos, do gozo bom.
Êxtase.
Antes um menino à míngua
Agora ofegante canção.
Deito, como em mim tu deitas (Preta minha)
Depois da entrega, folia, baião.
Antes arfante ventania,
Agora (graças e por ti, Preta) tranqüilo furacão.


